sexta-feira, 14 de julho de 2017

O MEU FADO


Eu quis co'a alma compor
um fado a ser cantado
por uma voz lusitana,
que o fizesse chorado.

Mas minha pátria história
difere da portuguesa
e em mim não tenho gravada
a dor do reino perdido.

O sal que sai dos meus olhos
nunca salgou além-mares.
Os sonhos que em vão sonhei
nunca os foram de um povo.

O português marinheiro,
que vislumbrou novas terras,
jamais senti-o no peito,
nem enlevou-me o espírito.

Nunca mirei o oceano
à espera do retorno
dos que adentraram ao mar
e que não mais retornaram.

Da portuguesa viola,
com seu lamento e choro,
não conheço o gemido
que faz chorar portugueses.

Como compor o meu fado
se o fado de mi’a vida
dista do que é lusitano
tanto quanto o céu da terra?

Calou-se, então, em mi’alma
o fado que eu quis compor,
pois as dores do fadista
jamais doeram em mim.


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