Eu quis co'a alma compor
um fado a ser cantado
por uma voz lusitana,
que o fizesse chorado.
Mas minha pátria história
difere da portuguesa
e em mim não tenho gravada
a dor do reino perdido.
O sal que sai dos meus olhos
nunca salgou além-mares.
Os sonhos que em vão sonhei
nunca os foram de um povo.
O português marinheiro,
que vislumbrou novas terras,
jamais senti-o no peito,
nem enlevou-me o espírito.
Nunca mirei o oceano
à espera do retorno
dos que adentraram ao mar
e que não mais retornaram.
Da portuguesa viola,
com seu lamento e choro,
não conheço o gemido
que faz chorar portugueses.
Como compor o meu fado
se o fado de mi’a vida
dista do que é lusitano
tanto quanto o céu da terra?
Calou-se, então, em mi’alma
o fado que eu quis compor,
pois as dores do fadista
jamais doeram em mim.
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