quinta-feira, 14 de setembro de 2017


Desde novo encantou-me um cemitério,
não o moderno, qual jardim sem lar,
mas o antigo, com arte tumular.

Com uma tia, visitá-lo eu ia
onde repousam os meus familiares,
e ela falava-me de outros mortos.

Eu contemplava retratos antigos
e pelas datas calculava idades,
penalizado pelos que eram jovens.

Tantas histórias eu imaginava,
outras ouvia de minha velha tia
e preferia a de casais idosos.

Quanta beleza naquela união,
insuportável a separação,
que logo um ia encontrar o outro!

Quando crescido fiz minhas viagens,
deixava espaço para os cemitérios,
grandes museus a céu aberto erguidos.

Quanta cultura eu adquiri
com tais visitas em que aqueles mortos
passaram, então, a existir p’ra mim.

Ante a balbúrdia e a confusão do mundo,
eu caminhando entre tais sepulcros,
sentido encontro para a vida humana.

Mais que apenas arte tumular,
todo engenho da humanidade
vivo está em tantos cemitérios.

Há nesses campos grande paradoxo:
mais vida e arte há em seus silêncios
do que nos centro de nossas cidades.


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